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Retratos: Filmes de Ute Aurand e Margaret Tait
 
A Sessão Mutual Films de setembro traz um diálogo entre os trabalhos de admiradoras mútuas e amigas. A cineasta alemã Ute Aurand - que já exibiu seus filmes em importantes festivais, como os de Berlim, Hong Kong, Mar del Plata, Nova York, Roterdã, Toronto e Viena - virá ao Brasil pela primeira vez para apresentar seus filmes em 16 mm e conversar com o público sobre seu método de trabalho. Entre as atividades que contarão com presença de Aurand, haverá uma sessão-homenagem de curtas-metragens recém-digitalizados da cineasta escocesa Margaret Tait, que se tornou uma importante referência para a obra da artista alemã.
O texto original a seguir, sobre a relação entre Aurand e Tait, foi escrito por Sarah Neely, professora de cinema e cultura visual na Universidade de Glasgow, diretora da iniciativa Margaret Tait 100 , e pesquisadora das obras de Aurand e Tait.
- Aaron Cutler e Mariana Shellard

 
Esses instantes que decorrem no ar
 
Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles explodem silenciosamente no espaço.
Clarice Lispector,
Água viva (1973, p. 7)
 
Pulsantes, fragmentários e fugazes - os tons de pele rosada de uma série de imagens foscas que abrem o filme recente de Ute Aurand, Relances de uma visita a Orkney no verão de 1995 (Glimpses from a Visit to Orkney in Summer 1995, 2020) são intermitentemente colocados em foco, revelando uma variedade de rosas, presumivelmente do jardim da cineasta e poetisa escocesa Margaret Tait (1918-1999). A câmera móvel se aproxima ou se distancia a cada movimento, em cada quadro, oferecendo uma nova perspetiva e talvez até a falsa promessa de sentir o perfume das flores. O filme mudo, encomendado para o centenário de Tait, é composto por imagens que foram filmadas quando Aurand visitou Tait em sua casa em Orkney, um arquipélago na costa nordeste da Escócia.
 
A cineasta e curadora alemã Aurand (que nasceu em 1957) conheceu o trabalho de Tait em 1992, quando o filme Hugh MacDiarmid: A Portrait (1964) foi exibido em Berlim como parte de um programa apresentado pela London Film-Makers' Co-op. Após receber o incentivo de uma amiga que achava que o estilo pessoal e poético do cinema de Tait a interessaria, Aurand visitou a cooperativa para ver a coleção de filmes de Tait. Ela então retornou a Berlim com cópias da coleção, que usou para estudo pessoal, bem como para fins de exibição e distribuição mais ampla. Em 1994, como parte de uma série realizada no Arsenal - Institut für Film und Videokunst e.V. de filmes feitos por cineastas mulheres, Aurand montou um programa de filmes de Tait, que foi exibido primeiro em Berlim e depois em Hamburgo, Düsseldorf e Frankfurt. (Alguns anos depois, Aurand conseguiu adquirir cópias de seis dos filmes de Tait para o departamento de distribuição do Arsenal.)
 
Quando Aurand visitou Tait em Orkney, um sentimento de admiração mútua já havia se estabelecido. Meu primeiro encontro com Aurand foi por meio do arquivo de Tait, quando eu estava fazendo pesquisa para um livro sobre ela.[1]  Enquanto eu examinava as muitas correspondências que documentaram a luta de Tait para buscar o apoio necessário para financiar e distribuir seu trabalho ao longo de sua vida, as cartas de Aurand se destacaram por sua genuína oferta de apoio e solidariedade. Na década de 1950, quando Tait retornou à Escócia após estudar cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma, sua expectativa era fazer filmes em grande escala - como Aurand descreveu em uma entrevista, não "como a poetisa solitária ou a artista solitária, mas como uma cineasta." [2]   Apenas algumas semanas antes de sua morte, em 1999, Tait expressou gratidão em uma carta a Aurand por "ter feito mais do que qualquer outra pessoa por meus filmes, exibindo-os, apresentando-os a novos públicos, até mesmo gerando receita para mim." [3]
 
Durante a visita a Orkney, Tait mostrou a Aurand alguns de seus filmes que não haviam sido preservados pela cooperativa, bem como obras inacabadas, incluindo alguns rushes com papoulas, que Aurand a encorajou a desenvolver, no que se tornaria seu último filme, Garden Pieces (1998). Em Orkney, as duas também começaram a trabalhar em um projeto a partir de um esboço de roteiro que Tait havia escrito, chamado Video Poems for the 90s. Elas pegaram suas câmeras Bolexes e começaram a filmar. Como Aurand lembrou: "Nós não terminamos os filmes-poemas, mas foi um começo inesquecível… sem fim." [4]   O filme nunca foi concluído, embora as cineastas tenham tentado dar continuidade, compartilhando por correio novos trechos que filmavam.
 
Os filmes, os programas e as cartas fazem parte de uma conversa, algo que o cineasta Peter Todd costuma chamar de "diálogo". Também é provável que a abertura e o imediatismo dos filmes de Aurand e Tait inspirem esse tipo de engajamento. Aurand relembrou que em suas primeiras experiências como cineasta se inspirou no estilo de filmagem de Jonas Mekas, que tem, segundo ela, uma qualidade que é ao mesmo tempo "íntima e privada [...] e fala com o mundo inteiro." [5]   De forma similar, ela descreveu o ato de assistir ao filme The Stoas (1997), de Robert Beavers, e experimentar uma sensação de entrar em "um espaço além das imagens, onde se está inteiramente em si mesmo e simultaneamente no mundo. Onde já não se fala; onde se está simplesmente presente, recebendo integralmente o presente do filme." [6]
 
Tait e Aurand frequentemente se referiam a seus filmes como presentes. Às vezes, são presentes para os amigos e parentes que as artistas estão filmando, mas também são presentes para o espectador - uma oferta. Essa generosidade de espírito é aparente em um estilo compartilhado de filmar, que é ao mesmo tempo voltado para dentro e para fora, e convida o espectador a se envolver totalmente no mundo que está sendo filmado - a juntar-se às cineastas nas suas buscas pelos instantes que decorrem no ar.
 
Em uma carta ao marido de Tait, Alex Pirie, Aurand escreveu sobre "esses pequenos momentos que juntos criam um sentimento, um lugar de Empfindungen [sensações], esse algo invisível sem qualquer prova." [7]    É o que também marcou o trabalho de Tait, algo que Pirie descreveu como uma "poesia da presença". [8]   É um apelo para dar atenção aos momentos cotidianos que passam facilmente a cada respiração, mas que dentro de si contêm multidões - os "fogos de artifício" que Clarice Lispector descreve que "explodem silenciosamente no espaço". É isso que está em jogo nos filmes de Aurand e Tait.
 
A obra de Lispector foi trazida à minha atenção pela primeira vez após a publicação póstuma do livro experimental de não ficção de Tait, Personae, em 2020. Embora seja incerto se a cineasta e poetisa escocesa tenha conhecido o trabalho da célebre escritora ucraniana-brasileira, seus estilos de escrita, de vida, de fluxo de consciência às vezes têm semelhanças inquietantes. Tait escreveu a maior parte de Personae em 1959, mas o livro permaneceu inédito durante sua vida. Água viva, assim como Personae, dedica-se a proporcionar a experiência plena da vida cotidiana - toda a riqueza de detalhes, ordinários e extraordinários. Enquanto Lispector escreve sobre os fogos de artifício no instante, Tait escreve sobre seu compromisso com um tipo de poesia crua, semelhante à ideia de Federico García Lorca de "poesia de sangue", de poesia que combina "o movimento do sol com o movimento de si mesmo", de "espaço interestelar" e das "estrelas no sangue". [9]
 
Os filmes de Tait e Aurand têm muito em comum com os estilos de escrita de Tait e Lispector, por meio de seu compromisso de registrar a plenitude do instante que decorre no ar, de reconhecer a poesia no cotidiano e de valorizar o potencial dessa poesia de puxar para dentro e de dentro para fora.
 
Em Relances de uma visita a Orkney no verão de 1995, alguns momentos da visita de Aurand à casa de Tait são oferecidos de forma expandida. As mudanças de foco e a edição em staccato enfatizam a natureza fugaz da experiência e homenageiam o filme de Marie Menken que é referenciado no título do filme, Relances do jardim (Glimpse of the Garden, 1957), mas também nos alertam para prestar atenção, concentrar, manter nossos olhos abertos e evitar perder as imagens, pois elas piscam rapidamente na tela. Aurand intercala os diferentes segmentos do filme com uma série de telas monocromáticas que se dissolvem em uma variedade de cores. Esse dispositivo interrompe nossa capacidade de discernir o assunto que está sendo filmado e chama a atenção para a preciosidade do próprio material fílmico. Também fornece ao espectador uma sensação de como as memórias são processadas.
 
Perto do desfecho de Relances, finalmente avistamos Margaret Tait. Embora na metade do filme tenhamos visto brevemente o que podem ser as mãos dela (primeiro escrevendo em um quadro-negro, depois virando as páginas de um livro), é apenas no final que vemos Tait em seu estúdio, sentada em uma mesa posta para o almoço, servindo uma xícara de chá - primeiro para sua visitante e depois para ela mesma. Ela olha para a câmera, sorri, e então a tela fica preta -, um choque repentino, um vislumbre fugaz, um instante passageiro.
 
[1] NEELY, Sarah. Between Categories - The Films of Margaret Tait: Portraits, Poetry, Sound and Place.Oxford: Peter Lang, 2017.
 
[2] De uma entrevista com Aurand realizada em junho de 2011.
 
[3] "Carta de Margaret Tait a Ute Aurand, 23.03.1999". In: ORTEGA, Garbiñe (ed.). Cartas como filmes/Letters as Films. Pamplona: Punto de Vista/La Fabrica, 2021. Vale ressaltar que, na mesma carta, Tait também menciona o apoio do cineasta e curador Peter Todd, que vinha exibindo os filmes de Tait em Londres.
 
[4] Publicado originalmente em: NICOLSON, Anabel, TODD, Peter, AURAND, Ute e WOOD, Sarah. "Remembering Margaret Tait (1918-1999). Vertigo, v. 2, n. 7, 2004.
 
[5] AURAND, Ute. "How I Began to Film". In: ORTEGA, Garbiñe e CRUZ, María Palacios. Meditaciones sobre el presente: Ute Aurand, Helga Fanderl, Jeannette Muñoz, Renate Sami. Navarra: Punto de Vista - Festival Internacional de Cine Documental, 2020.
 
[6] Ibidem.
 
[7] "Carta de Ute Aurand a Alex Pirie, março de 1996". In: ORTEGA, Garbiñe (ed.). Op. cit.
 
[8] De uma entrevista com Pirie em setembro de 2006.
 
[9] TAIT, Margaret. Personae. Ed. Sarah Neely. LUX, 2020. Mais informações sobre o livro

 
AGENDA
 
IMS Paulista
 
14/9, quarta, 19h
Curtas de Ute Aurand - Sessão comentada ao vivo pela diretora
 
15/9, quinta, 18h
Onde eu estou é aqui: Filmes de Margaret Tait - Sessão apresentada por Ute Aurand
 
15/9, quinta, 20h
Verde correndo com cavalos - Sessão apresentada por Ute Aurand
 
18/9, domingo, 19h20
Onde eu estou é aqui: Filmes de Margaret Tait (reprise sem apresentação)
 

IMS Rio
 
17/9, sábado, 17h
Curtas de Ute Aurand - Sessão comentada ao vivo pela diretora
 
18/9, domingo, 16h
Onde eu estou é aqui: Filmes de Margaret Tait - Sessão apresentada por Ute Aurand
 
18/9, domingo, 17h45
Verde correndo com cavalos - Sessão seguida de debate com Ute Aurand e Lucas Murari

 
SINOPSES DOS PROGRAMAS
 
Curtas de Ute Aurand
 
Onde eu estou é aqui: Filmes de Margaret Tait
 
"Verde correndo com cavalos"
 

BIOGRAFIAS DOS CONVIDADOS
 

Web site IMS - Sessão Mutual Films - Informações e ingressos - Rio de Janeiro e São Paulo
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