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“Textos de Lana Gogoberidze”
Os textos a seguir foram escritos por Lana Gogoberidze em 2023 e incluídos nos materiais de divulgação do filme Mãe e filha, ou A noite nunca é completa. Eles se encontram em inglês no site do Arsenal – Instituto para Cinema e Vídeo, que juntou materiais sobre o filme na ocasião de suas exibições no Festival de Cinema de Berlim (na mostra Forum) em 2024. Pela permissão de postar as traduções dos textos para português, agradecimentos vão à Lana Gogoberidze, à Salomé Alexi e à equipe do Arsenal. “A história de uma mulher esquecida” No prólogo do filme Mãe e filha, ou A noite nunca é completa, uma série de fotografias antigas mostra uma mãe e filha se abraçando. Não sei se as fotos mostram um encontro ou uma separação, assim como não tenho clareza se as nossas vidas são um encontro ou uma separação. O filme é sobre minha mãe. Eu tive que fazê-lo, pois mais ninguém poderia relatar a história desta mulher esquecida, uma das primeiras cineastas da União Soviética, quem, como milhões de outras mulheres, foi presa durante o Grande Expurgo. Os filmes dela também sumiram, aparentemente para sempre. O que o sistema infligiu sobre essas mulheres, evidentemente inocentes, é uma expressão do mal absoluto: foram presas por serem parentes de “inimigos do povo”, sem qualquer processo ou acusação formal – um ato de desrespeito à lei sem precedentes na história da justiça internacional. Mas naquele momento, quando a mãe estava se despedindo da filha na estação de trem, ela estava partindo para fazer um filme. A filha estava se despedindo da mãe e chorando. E, a partir desse momento, surge a questão – o motivo da mãe foi suficiente para justificar as lágrimas da filha? Para mim, este filme é uma tentativa de responder à pergunta. Quando eu comecei a trabalhar, encontrei o problema principal – como retratar aqueles dias em imagens. Tudo o que eu tinha de minha mãe eram fotos dela nos sets de filmagem. E, devido à natureza íntima do filme, eu queria evitar o caminho tradicional de imagens de arquivo. Foi assim que o filme finalmente tomou forma. Havia as fotos antigas que sobreviveram a confiscação, inclusive, uma foto emblemática de minha mãe – uma mulher excepcionalmente linda vestida com roupas uzbeques. Havia as colagens, criadas por Simon Machabeli, que retratam os dias passados, assim como uma imagem do “quarto azul” – o mundo alegre e de curta vida da minha infância, agora restaurado com pedaços azuis de memória. Havia também os episódios dos meus filmes anteriores, nos quais eu falo sobre minha mãe de forma direta ou indireta. Eu acrescentei uma narração do ponto de vista atual e assim tentei dar a eles o poder de um documento verdadeiro, como se a minha compreensão da realidade fosse a realidade em si. As filmagens do meu longa-metragem anterior, O fio dourado, também foram registradas pelo cinegrafista Jean-Louis Padis de uma forma criativa para serem incluídas no filme, que também lida com a história do cinema – a história das mulheres cineastas, aqui representada através de três gerações de diretoras. Minha mãe, eu e minha filha. O lado emocional da narração precisava ser ampliado pela música. O trabalho em saxofone de Rezo Kiknadze introduz o som do momento atual com uma entonação assombrosa e perturbadora, que contrasta com “Frère Jacques”, uma música da minha infância. A melodia clara e alegre da música muitas vezes some por de trás dos sons ameaçadores, mas ainda assim, ela ganha no final. E finalmente temos os filmes ressuscitados de Nutsa Gogoberidze e seu reconhecimento internacional. Foi a volta à vida da minha mãe, e as lágrimas da criança, em consequência, se secaram. Porque as ditaduras caem, enquanto as obras de arte – ou a beleza, em outras palavras – que as pessoas criam perduram para sempre. “Viver para contar a história”, nas palavras de Gabriel García Márquez, e eu também sinto isso. Eu vivi para poder contar a história. Porque minha vida é um reflexo das grandes catástrofes históricas que ainda existem como feridas no corpo do nosso país. E é uma característica das feridas que elas às vezes se abrem, e até sangram... * "‘Lágrimas’ à beira-mar” A praia sem fim de Kobuleti. O mar – tranquilo, brincalhão, “visitando as crianças como um convidado delas” (como disse Boris Pasternak). Minha mãe e eu, descalças, caminhamos pela orla. Ondas suaves acariciam nossos pés com ternura. Estou brincando com as ondas, pulando e recolhendo “sliozkies”, que significa “lágrimas” – pequenas pedras transparentes, em forma de lágrimas. Essas lindas pedrinhas, brilhando sob a luz do sol, são um presente que o mar oferece às crianças. De repente, ouço minha mãe murmurando para si mesma: “O mar estava tão calmo então, Que não me lembro se ele existia ou não.” Minha mãe pronuncia essas palavras com tristeza, pois sabe que, embora o mar esteja tão calmo aqui, lá, na vida real, o céu está ficando absolutamente escuro e um furacão terrível está prestes a eclodir. Consigo sentir a tensão na voz dela e, à medida em que ela se aproxima do mar, mais e mais, fico com medo de que ela entre nas profundezas e nunca mais volte. Mais tarde, esse furacão impiedoso destruiu tudo e a todos ao nosso redor e levou minha mãe para a terra da noite eterna – a região polar. E eu já não tinha certeza se tudo isso – o mar azul e alegre, minha mãe à beira-mar, a felicidade de estarmos juntas – havia realmente existido... E, de modo geral, aquela infância, engolida pelo terrível furacão, alguma vez de fato existiu? Então um dia descobri que as “lágrimas” também haviam desaparecido. A praia de Kobuleti ficou coberta por pedras cinzentas, redondas e opacas, de formato semelhante – o mar deixou de oferecer presentes às crianças. Anos depois, na orla de Kobuleti, todas as manhãs, eu via uma mulher: Ela estava sempre sozinha, caminhando perto do mar, descalça, com as ondas tocando levemente seus pés. Às vezes, ela se abaixava, procurando algo na areia. E eu sabia que ela estava recolhendo as “lágrimas” da minha infância, que já não existiam mais. Então vi a mulher entrar no mar, cada vez mais fundo. A mulher era a Princesa Maya, a heroína do meu primeiro longa-metragem [Sob um mesmo céu]. Ela entrou no mar e desapareceu. O mar levou a mulher embora. Eu estava esperando por ela, mas foi minha mãe quem emergiu do mar. Ela retornou depois de dez anos de exílio na terra sem sol. Ela voltou para murmurar a si mesma um dia: “O mar estava tão calmo então, Que não me lembro se ele existia ou não.” Ouvi essa voz e, de repente, uma visão que parecia estar esquecida para sempre reapareceu: a do mar, brincando alegremente com crianças, de minha mãe e eu caminhando juntas pela orla. E senti do fundo do meu coração: Existiu, de fato existiu. Este mar terno que chegou como convidado das crianças. Minha mãe caminhando descalça pela praia, os versos do poema inspirados por aquela harmonia. Aquelas pedrinhas transparentes e minúsculas, que se parecem com lágrimas. A alegria infantil e interminável de encontrar cada uma dessas “lágrimas”. Realmente existiu: a infância, à qual me despedi recolhendo “lágrimas” em meu punho. A infância, da qual todos nós viemos (como disse Antoine de Saint-Exupéry). * “Tragedia alegre” Hoje a Geórgia ainda se encontra na encruzilhada: ou vai assumir o seu lugar no mundo civilizado, ou ela vai ficar nas margens como um Estado pós-soviético que perdeu sua chance histórica. De acordo com os censos sociais recentes, 90% dos cidadãos da Geórgia querem se juntar à União Europeia. Este número é um indicador de que a integração à Europa é algo que a nação inteira deseja. É a única questão social em torno da qual a opinião popular do país se une. Nesse sentido, o europeismo é determinado não pela localização geográfica de um país, mas pela mentalidade dos seus cidadãos. A mentalidade ou a cultura. Um georgiano se sente europeu porque, com seus valores, conteúdo e entonação, a cultura georgiana em si é europeia. Europeia e, ao mesmo tempo, peculiar, independente e diferente. Esse é o nosso nicho dentro da cultura ocidental. Cultura no sentido mais amplo e com todos os seus aspetos: o cultivo de vinhedos, culinárias diversas, centros pedagógicos antigos em Ikalto e Gelati, campos da arte com seus fortes correntes humanistas: a arquitetura (que combina tão naturalmente com a natureza, a literatura, a música), a polifonia, a pintura, o teatro, o cinema... É isso que nos faz tão atraentes e interessantes ao Oeste. E há mais uma qualidade da cultura georgiana (na minha opinião, uma qualidade muito importante e característica), que [o filosofo georgiano] Merab Mamardashvili deixou claro para mim em uma discussão muito interessante e esclarecedora: “Existe um elemento codificado na cultura georgiana, que eu chamaria de tragedia alegre. Uma nação que mal sobreviveu por séculos é trágica, e sua cultura também é. Mas, ao mesmo tempo, esta nação tem o talento da alegria, quer dizer, o talento da vida – uma das maiores conquistas da cultura. Um grito de alegria percorre nosso sangue, e esse é o nosso desafio ao destino.” Me fascina essa interpretação da cultura georgiana! O talento da alegria, igual ao talento da vida! O grito de alegria, ou vida, que percorre nosso sangue e define o caráter da nossa cultura! Para mim, aí reside a resposta à pergunta eterna: Como foi que chegamos aonde estamos hoje? A busca pela alegria talvez seja a qualidade pela qual conquistamos todos os desafios e tribulações que nos inspiraram a criar O cavaleiro na pele de tigre [um poema épico georgiano escrito por Shota Rustaveli no Século XII], o Arcanjo Kintsvisi [uma representação localizada no Mosteiro de Kintsvisi] e os hinos polifônicos georgianos, que nos salvaram enquanto nação. O talento da alegria e vida derrubou a tragédia sempre presente em nossa história... Mais precisamente, não derrubou, mas absorveu, pegou. E disso surgiu um conceito tão ambivalente e atraente – a tragédia alegre... Depois, enquanto eu lia sobre o Reino da Cártlia [como a Geórgia se chamou entre os anos 1466 e 1762], descobri que, no Século XII, eles já sabiam que a alegria era uma característica nacional dos georgianos. Na crônica da época do Rei Tamar, se encontra a seguinte frase escrita sobre sua morte: “A alegria georgiana mudou de cor”. São palavras tão eloquentes: chegou o tempo do luto e a cor da alegria georgiana mudou... Não é coincidência que a Geórgia seja reconhecida como o berço mundial de vinho. O vinho tem uma ligação tão intensa e direta com a alegria! A mesa, o jantar, os brindes – é aqui que um georgiano se sente tão bem e natural! Porque o supra [em georgiano, o ato de se juntar em torno da mesa] consiste essencialmente na alegria de estar juntos, em um espaço onde cada pessoa se abre para as outras e onde todo mundo se diverte ao falar bem dos outros e ouvir coisas boas deles. Ao mesmo tempo, é essa qualidade que nos aproxima mais à cultura mediterrânea, e particularmente à cultura francesa, onde se encontra o conceito do bon vivant, que se refere literalmente àqueles que vivem e que gostam da vida. Na língua georgiana, a palavra “laghi” é um equivalente a este conceito. O delicioso é um conceito muito rico. É muito mais do que a alegria, pois se refere à uma pessoa que se abre aos outros, ao mundo, e que tem a capacidade de enfrentar os altos e baixos da vida com calma e firmeza. Um bon vivant é agradável. Eu já falei isso várias vezes e eu vou repetir: Vazha-Pshavela [um poeta e escritor georgiano que viveu entre os anos 1861 e 1915] expressou essa atitude frente ao mundo com a força e elegância de um grande poeta: “A vida me ofereceu um veneno e o recebi como um vinho da Caquecía”. O veneno se transformou em vinho caqueciano nas mãos de um georgiano! A vida nos oferece um veneno e o bebemos como um vinho fino. E, enquanto penso sobre isso, uma pequena estátua com mais de 2.800 anos, que foi encontrada durante as escavações em Vani, aparece diante de meus olhos: um homem segura um chifre de vinho e ele bebe dele de uma maneira entusiasmada...Este artefato incrível se chama “a primeira tamada” [o mestre de cerimônia em um supra], um homem com um chifre de vinho! Se pode pensar que Vazha estava escrevendo sobre essa pessoa! Eu pessoalmente experimentei o poder desta qualidade inata. Estou falando do período quando uma pessoa se forma – o período de transição da infância para a juventude. Aconteceu que alguns meninos e eu passamos juntos por essa fase tão importante da vida. Da perspectiva de hoje, eu sei que eu não poderia ter encontrado a força espiritual sozinha, não poderia ter enfrentado aquele ambiente escuro e desesperançoso. Foi a fúria de um ditador, à qual uma guerra mundial se acrescentou. Como resultado disso, objetivamente, a existência do homem soviético foi determinada por duas coisas: o medo constante e a fome constante. Mas sobrevivemos! E nós não apenas resistimos, mas também conseguimos viver com todo o fulgor dos sentimentos, porque, como foi revelado, o grito da alegria ecoou dentro de nós, o talento de viver, como uma característica nacional e como um desafio ao destino ou à infelicidade. E nós, os pequenos bon vivants georgianos equipados com essa qualidade genética inerente, matamos as aulas escolares com entusiasmo e passamos dias inteiros juntos. No escritório do círculo literário do Palácio da Juventude, nós todos escrevíamos poemas, sem nos importarmos com o fato de que alguns de nós éramos poetas por vocação e outros meros amadores. Nós organizávamos eventos noturnos de poesia muito populares que contavam com grandes públicos, e o mais importante, nós amávamos profundamente a poesia e uns aos outros e aproveitamos ao máximo as nossas vidas! E hoje parece claro para mim: Durante os anos mais duros da realidade soviética, nós, as crianças soviéticas, aceitamos o veneno que a vida nos ofereceu como se fosse um vinho fino caqueciano. A única conclusão que chego com essa discussão é a seguinte: Nós precisamos cuidar do nosso maior tesouro – a cultura georgiana, permeada pela tragédia alegre. E nós não podemos esquecer que ela precisa de um ambiente democrático, como o ar, para seu desenvolvimento. É por isso que é preciso entender essa cultura e a democracia moderna como os valores mais importantes, interligados um com o outro, e reconhecer o seu desenvolvimento como uma prioridade estratégica para a construção da soberania georgiana. Sim, a nossa cultura, com séculos de idade, é o nosso nicho e a nossa entrada para a civilização ocidental. |
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