| << |
|
|
Programa 1
Mãe e filha, ou A noite nunca é completa Deda-shvili an rame ar Aris arasodes bolomde bneli Lana Gogoberidze e Salomé Alexi | Geórgia/França | 2023, 89’, DCP (3003 Film Production) O título do 11º e mais recente longa-metragem da canônica cineasta georgiana Lana Gogoberidze toma emprestado um verso de Paul Éluard, poeta francês antifascista cuja obra circulava entre os membros da Resistência Francesa. O documentário parte das filmagens do longa-metragem de ficção tardio de Lana O fio dourado (Okros dzapi, 2019), sobre um apartamento que desencadeia uma série de memórias, para contar a comovente história de sua mãe, Nutsa Gogoberidze, que foi a primeira mulher a dirigir filmes na Geórgia. Lana, então com 94 anos, narra e dirige o documentário ao lado de sua filha, e também cineasta, Salomé Alexi, e relembra sua infância nos anos 1930, a vida estimulante de sua mãe, as recepções de poetas e artistas georgianos na sala azul da casa onde moravam, a reviravolta com a execução de seu pai, um membro do partido comunista que foi morto durante o Grande Expurgo, o exílio de dez anos de sua mãe na Sibéria, seu retorno quando a cineasta já era uma jovem adulta e a reconstrução do relacionamento delas até a morte de Nutsa, em 1966. Conforme Lana relembra anedotas de pequenos gestos de heroísmo e covardia praticados por parentes e conhecidos diante das pressões do regime soviético, ela também compõe uma imagem detalhada da vida pública e privada da Geórgia no século XX. A estrutura de Mãe e filha, ou A noite nunca é completa utiliza cenas dos filmes de ficção de Lana, como O dia é mais longo que a noite (Dges game utenebia, 1984), Algumas entrevistas sobre problemas íntimos (Ramdenime interwiu pirad sakitchebse, 1978) e A valsa no rio Pechora (Walsi petschorase, 1992). Cenas autobiográficas das ficções e observações na narração a respeito se misturam às fotografias de família e ao momento atual de vida de Lana, também ao lado de Salomé, cujo conforto com sua mãe no set de filmagem oferece ao mesmo tempo uma continuidade e um contraste à relação entre Lana e Nutsa. A história culmina com a redescoberta dos filmes dirigidos por Nutsa, que ficaram perdidos por décadas, dando novamente vida à pioneira diretora. Mãe e filha estreou em 2024 na mostra Forum no Festival Internacional de Cinema de Berlim e passou em diversos outros festivais desde então, inclusive no contexto de homenagens mais amplas a Lana e Nutsa Gogoberidze. O filme terá sua estreia brasileira no IMS Paulista. * Programa 2 (2 filmes, 95min): Filmes de Nutsa Gogoberidze Buba Nutsa Gogoberidze | ex-URSS / ex-República Socialista Soviética da Geórgia (RSSG) | 1930, 37’, 35 mm para DCP restaurado (3003 Film Production) + Ujmuri Nutsa Gogoberidze | ex-URSS / ex-RSSG | 1934, 58’, 35 mm para DCP restaurado (3003 Film Production) Nutsa Gogoberidze foi a primeira diretora de cinema da Geórgia. Ela nasceu em 1902 no atual Azerbaijão e, após estudar filosofia e diversas línguas, realizou três filmes. O primeiro, um documentário chamado O reino deles (Ikh tsarstvo, 1928), foi dirigido com seu compatriota Mikhail Kalatozov e hoje se encontra perdido. Ela dirigiu os outros dois filmes solo que terão suas estreias brasileiras no IMS Paulista após terem sido considerados perdidos por décadas e passarem fora da ex-URSS pela primeira vez apenas em 2020. O programa começa com o média-metragem documental Buba, que foi realizado no mesmo ano de clássicos do cinema soviético silencioso como Sal para Svanetia (Sol' Svanetii, 1930), de Kalatozov, e Terra (Zemlya, 1930), do ucraniano Aleksandr Dovjenko. O filme se passa em Racha, a região mais alta da Geórgia e cercada pela cordilheira do Cáucaso Maior. No encontro do rio Tshel-Tsikeli com o Rioni, uma hidrelétrica está sendo construída, na região em que existem alguns povoados – inclusive a aldeia de Buba – que mantêm seus hábitos e tradições milenares devido ao isolamento da região. Gogoberize retrata a população local em contato direto com a natureza, o alimento provido pelo cultivo da terra e pelos seios das jovens mães e os rituais que protegem o povo e acalmam a fúria das águas que banham a região, quando os homens partem para o trabalho na extração de madeira. Ela também mostra o progresso impessoal e estrangeiro cerceando os antigos vilarejos, tanto na construção da barragem quanto no turismo com resorts que procuram utilizar o poder curativo das águas locais. Já no longa-metragem de ficção Ujmuri (cujo nome se traduz livremente como “sem alegria”), uma comunidade feudal que vive na região pantanosa de Mingrélia está se transformando com a destruição da floresta e o aterramento dos pântanos, que colocam a população em risco, e a chegada da rede elétrica, um progresso trazido pela juventude comunista para combater a malária. Gogoberize utiliza de muita dramaticidade e expressionismo, em enquadramentos surpreendentes e vanguardistas, para contar a trágica história que tem como seu centro uma família local cujo patriarca (interpretado por Kote Daushvili), um reacionário proprietário de terras, procura se aproveitar de seu futuro genro e jovem líder comunista para impedir o progresso da região. Ujmuri mostra o triunfo da juventude sobre os decadentes hábitos locais que mantém a população em uma condição de perpétua miséria. A diretora e seus colaboradores (entre eles o próprio Dovjenko, que auxiliou no roteiro) exploram com delicadeza as características naturais da região, que são encarnadas em lendas como Ujmuri, uma figura sobrenatural, também conhecida como “a rainha dos sapos”, que assombra o local, por meio do pântano que devora tudo que entra nele. Tanto Buba quanto Ujmuri foram censurados por terem sido considerados filmes que contradiziam a estética soviética da época e criticavam o Estado de forma alegórica. Os dois filmes foram recuperados apenas em 2009 (no caso de Buba) e 2014 (no caso de Ujmuri), após as descobertas dos seus materiais originais em película nos arquivos do Gosfilmofond, na Rússia. Novas trilhas sonoras foram comissionadas para acompanhar as versões digitalmente restauradas das obras, ambas compostas por proeminentes compositores georgianos com vasta experiência no cinema, sendo Giorgi Tsintsadze para Buba e Giya Kancheli para Ujmuri. * Programa 3 (2 filmes, 111min): Sob um mesmo céu + Felicità Sob um mesmo céu Erti tsis qvesh Lana Gogoberidze | ex-URSS / ex-República Socialista Soviética da Geórgia (RSSG) | 1961, 80’, 35 mm para DCP restaurado (3003 Film Production) + Felicità Salomé Alexi | Geórgia | 2009, 31’, DCP (3003 Film Production) A diretora georgiana Lana Gogoberidze fez seu primeiro longa-metragem em comemoração aos 40 anos da União Soviética. O filme consiste em três episódios que, juntos, retratam a emergência do comunismo e as transformações que tal modelo político levou para a Geórgia, em histórias ambientadas em 1921, 1941 e 1961. No primeiro episódio, “Princesa Maya” (baseado em um romance do escritor georgiano Leo Kiacheli), Maya (interpretada por Liana Asatiani), uma princesa recém-despossuída de seus bens e de sua posição por causa da invasão bolchevique, vive em exílio. Ela é acompanhada por Daphino (Tsitsino Tsitsishvili), sua criada, e escoltada por Ambako (Giuli Chokhonelidze), um membro do partido comunista. Em uma tradicional festa à beira-mar, a relação passional amargurada de Maya com seus subservientes provoca a ruína de todos. No segundo episódio, “Pombas” (baseado em um romance de Archil Sulakauri, também corroteirista do filme com Gogoberidze), Nana (Kira Andronikashvili), uma adolescente sonhadora, passa o tempo brincando nos telhados das casas de seu vilarejo ao lado do pequeno Zuriko (Rezo Tataradze) e de seu irmão Levan (Givi Kiasashvili), um criador de pombas por quem Nana alimenta uma ingênua paixão. Do alto, eles veem os jovens locais serem alistados para lutar pela União Soviética na Segunda Guerra Mundial, até que essa realidade atinge o próprio trio. No terceiro, “Afresco” (uma história original), Rusudan (Guranda Gabunia), uma renomada arquiteta em Tiblíssi à beira de concluir o enorme ginásio que abrigará as Olimpíadas locais, se apaixona por Zaza (Tengiz Archvadze), um artista obscuro e ousado que a surpreende com um afresco na entrada do ginásio. O amor não correspondido de Rusudan leva à construção um tom de melancolia que é superado durante a abertura dos jogos. Os três episódios de Sob um mesmo céu são unidos por uma sensação agridoce da passagem do tempo e uma ousada sensibilidade feminista. A produção grandiosa do filme, a direção astuta dos atores e a deslumbrante fotografia (de Levan Paatashvili), nos moldes do melhor cinema soviético da época, consagraram Gogoberize como a principal diretora de seu país, mesmo ela tendo sofrido com a censura de seu filme, que foi boicotado por Moscou na submissão em festivais internacionais. Ainda assim, o filme estreou no Festival de Berlim (porém, sem a primeira história) e pavimentou o caminho de Lana no cinema. As exibições de Sob um mesmo céu no IMS Paulista contarão com apresentações em vídeo de Lana Gogoberidze e Salomé Alexi, filha de Lana e também cineasta, cujo média-metragem Felicità passará após o longa. No filme de Alexi, o velório de Valiko, um pai de família da zona rural da Geórgia que sofreu um acidente fatal de carro, é transformado pela viúva que, aos prantos, se lamenta do ocorrido, divagando em cima do caixão sobre sua vida, por meio de uma ligação telefônica, pois ela está trabalhando de forma ilegal na Itália e não pôde voltar para comparecer à cerimônia. A comédia leve, porém, de humor ácido, retrata a condição econômica real do país, que mobiliza anualmente milhares de cidadãos, principalmente mulheres, a migrarem para a União Europeia em busca de melhores oportunidades de trabalho e de sustento para suas famílias, que são deixadas para trás. A diretora, que teve formação em artes plásticas, vislumbrou uma fotografia estática que remete aos tableaux vivants, ao mesmo tempo que retrata o perfil da população do vilarejo majoritariamente de velhos e crianças.
Felicità (cuja história se baseia em um romance da escritora georgiana Zaira Arsenishvili, roteirista frequente dos filmes de Lana) estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde recebeu uma menção especial. Ele foi filmado em 4K e será exibido em seu formato digital original. Sob um mesmo céu será exibido em uma cópia digital de alta resolução que resulta de um escaneamento de materiais em 35 mm feito no Arquivo Nacional de Cinema da Geórgia. Agradecimentos da sessão: Barbara Wurm, Boris Nelepo/DocLisboa, Gaby Babic/Kinothek Asta Nielsen, Giliane Ingratta Góes, Jean-Louis Padis/Manuel Cam, João Pedro Bénard/Cinemateca Portuguesa, Liciane Mamede/Mostra Ecofalante de Cinema, Marcelo Felix, Maria Vragova + Luiz Gustavo Carvalho/Ars et Vita, Salomé Alexi/3003 Filmproduction |
| MUTUAL FILMS |