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“Entrevista com Behrang Samsami sobre Sohrab Shahid-Saless” A entrevista a seguir foi realizada por e-mail em maio de 2026 com Behrang Samsami, acadêmico e jornalista freelancer nascido no Irã e atualmente baseado na Alemanha. Samsami é doutor em Estudos Alemães e já programou filmes de Sohrab Shahid-Saless em diversas ocasiões (por exemplo, no Festival de Cinema de Munique em 2024) e escreveu extensivamente sobre o cineasta, principalmente em sua biografia em três volumes, As longas férias de Sohrab Shahid Saless ( Die langen Ferien des Sohrab Shahid Saless, 2023, ). Embora o livro exista atualmente apenas em alemão, um artigo em inglês do autor, que resume grande parte do seu conteúdo, foi recentemente publicado na revista online Transit , pertencente ao Departamento de Alemão da Universidade da Califórnia, Berkeley (). Agradecimentos vão a Samsami por nos conceder esta entrevista e fornecer materiais de leitura relevantes ao longo do processo de pesquisa envolvido na preparação das exibições do filme de Shahid-Saless, Longe de Casa (Dar Ghorbat / In der Fremde, 1975), no Instituto Moreira Salles Paulista. Mutual Films: Entendemos que Sohrab Shahid-Saless era filho de um funcionário público e que, por isso, morou em diferentes lugares do Irã quando jovem. Quais foram os principais fatores que o levaram a querer trabalhar com cinema? Behrang Samsami: Sohrab Shahid-Saless, nascido em 1944 em Teerã, veio de uma família de classe média. Aparentemente ele não teve uma infância ou adolescência feliz. Sua mãe biológica abandonou a família quando ele tinha um ano e meio, e ele cresceu, portanto, com suas tias e uma madrasta. Essa perda, combinada com uma vida familiar difícil, teve um impacto duradouro sobre ele. A julgar pelas declarações feitas pelo cineasta e por seus parentes e amigos, o cinema parece ter se tornado um lugar de fuga, de sonhos, e também de possibilidades para ele. É preciso também considerar as circunstâncias sociopolíticas: após o golpe de Estado apoiado pela CIA contra o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh em 1953, o Irã tornou-se uma ditadura sob o comando do xá Mohammad Reza Pahlavi. Naquela época, jovens iranianos começaram a ir para o exterior, estudar cinema ou outras áreas e aprender, por exemplo, sobre o neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa. Quando esses jovens iranianos retornaram ao país, buscaram contrapor o cinema de entretenimento apolítico conhecido como filmfarsi, bem como as importações – particularmente dos EUA e da Índia – com um cinema realista e socialmente crítico. Esse movimento, que incluiu cineastas como Dariush Mehrjui, Masoud Kimiai e Bahram Beyzai, ficou conhecido posteriormente como a Nova Onda Iraniana. Sohrab Shahid-Saless, por sua vez, era um homem sensível e vulnerável e um observador atento ao seu entorno. Após concluir o ensino medio em 1962, desejava estudar cinema na IDHEC, em Paris. Quando isso se mostrou impossível, se mudou para Viena. Outros cineastas que posteriormente realizaram longas-metragens e documentários no Irã, como Khosrow Sinai e Manuchehr Tayyab, também estudaram lá. No caso de Saless, há o fator adicional de sua mãe biológica ter vivido em Viena com sua segunda família. A produção cinematográfica, portanto, permitiu que ele combinasse duas coisas importantes para si: engajar-se artisticamente com suas próprias experiências traumáticas, e, ao mesmo tempo manter-se comprometido com a realidade e com a criação de Bild-Landschaften (um termo alemão que pode ser traduzido como “paisagens fotográficas”) universais e singulares. Ao ler os roteiros que o cineasta escreveu em alemão para seus filmes, fica claro que ele também teria sido um excelente escritor de prosa. Sua decisão de fazer filmes foi influenciada por seus modelos de referência cinematográficos como Robert Bresson, Yasujiro Ozu e Forough Farrokhzad, e também, por escritores como Franz Kafka e Albert Camus, e particularmente por um autor russo: Anton Tchekhov. MF: Sabemos que Shahid-Saless valorizava a obra de Tchekhov, que aparece como referência ou mesmo ponto de partida em vários filmes. Há o filme biográfico que ele fez para a televisão alemã, Anton P. Tchekhov – uma vida (Anton P. Cechov – Ein Leben, 1981), bem como sua adaptação cinematográfica de um conto de Tchekhov, O salgueiro (Der Weidenbaum, 1984), além de muitas outras ocorrências de Tchekhov. Por exemplo, o filme Tempo de amedurecimento (Reifezeit, 1976) é dedicado a Tchekhov; o destino do protagonista Mohammad em Natureza morta (Tabi’at-e bijan, 1974) lembra o do velho servo Firs na peça de Tchekhov O jardim das cerejeiras (Vishnyovyi sad, 1904), com ambos os homens marginalizados pelo mundo moderno; e a homenagem a um conto de Tchekhov de 1885 (cujo título em em português é “Em terras estrangeiras”) que está presente no título original em alemão do filme Longe de casa. Quais foram os principais fatores que atraíram o cineasta para a obra de Tchekhov, e quais foram as qualidades mais importantes da obra de Tchekhov que ele quis levar para o cinema? BS: Sohrab Shahid-Saless descreveu Anton Tchekhov como um “maestro”. Para ele, a maestria do escritor russo residia, entre outras coisas, em sua capacidade de criar obras que, ao serem lidas, o impressionavam como se tivessem sido escritas recentemente. É bem possível que, ao ler os contos e peças de Tchekhov, ambientados na Rússia do final do século XIX e início do século XX, Shahid-Saless tenha se lembrado de sua própria terra natal e época: a riqueza do czar, da nobreza e dos empresários, e a pobreza da vasta maioria no multiétnico Império Russo; a natureza autocrática e centralizada do Estado e sua estrutura econômica atrasada; os contrastes entre a capital e as províncias; e uma vida dividida entre a modernidade e a tradição – as condições descritas por Tchekhov apresentam paralelos impressionantes com o Irã sob o xá Mohammad Reza Pahlavi. O diretor parece ter reconhecido também esses paralelos. “O que me interessa muito é o estilo de escrita de Tchekhov. Tento ao máximo filmar da mesma forma que ele escrevia”, disse o cineasta em 1974, numa entrevista com Ulrich Gregor, jornalista alemão de cinema e um dos fundadores da mostra Fórum Internacional de Jovens Cineastas em Berlim Ocidental, no Festival Internacional de Cinema de Berlim. O aguçado poder de observação de Tchekhov e seu estilo conciso, preciso, despojado, ainda que atmosfericamente rico ao descrever pessoas e as circunstâncias em que vivem causaram uma profunda impressão em Shahid-Saless. A isso se somava o interesse de Tchekhov por pessoas “comuns”, marginalizadas, com problemas de saúde física e mental, bem como o compromisso social do autor, evidente em sua viagem à ilha de Sacalina, onde pôde observar pessoalmente as condições de vida dos prisioneiros em uma colônia penal. Em seus filmes, o diretor também se concentrou em pessoas “danificadas”, que vivem relacionamentos instáveis, irreconciliáveis e disfuncionais, que não têm palavras para expressar os problemas e questões que as afligem, que além disso vivem na pobreza, que se sentem incompreendidas e cuja sensação de impotência, em certos casos, “se rompe” e se manifesta com extrema raiva e violência (física) contra si mesmas e contra os outros. Shahid-Saless falou em diversas ocasiões sobre seu desejo de criar “documentos de seu tempo” por meio de seus filmes. Ele obteve tanto sucesso nisso quanto Tchekhov em seus contos e peças. O que também importa aqui é a abordagem do artista: “Ao ler as obras de Tchekhov, aprendi a manter a cabeça fria, a sempre permanecer objetivo – frio como gelo, para ser preciso…”, o cineasta disse em uma entrevista de 1979 com a jornalista franco-americana Corine McMullin. MF: É evidente que Longe de casa é uma obra de transição entre as experiências de Shahid-Saless no Irã e na Alemanha Ocidental. Também é evidente que certos aspetos concretos em Longe de casa podem ser identificados como iranianos ou alemães, como os locais de filmagem e as nacionalidades dos participantes. Você acredita que também existam aspetos artísticos, estéticos e temáticos do filme que possam ser particularmente identificados como iranianos ou alemães? Há características específicas em Longe de casa, presentes nos filmes iranianos de Shahid-Saless, que não se observam nos filmes alemães subsequentes dele? E há características específicas em Longe de casa que o diretor desenvolve nos filmes alemães subsequentes, mas que não aparecem tanto nas obras feitas no Irã? Gostaríamos também de esclarecer que entendemos que o filme não pode ser lido como uma simples dicotomia entre Irã e Alemanha Ocidental, inclusive porque isso excluiria o crucial terceiro país – a Turquia – que está presente no filme, tanto no nível documental, quanto na ficção. BS: De fato, Longe de casa é uma obra de transição. Pessoalmente, porém, eu não daria muita ênfase às diferenças entre “iraniano”, “alemão” ou “turco”. Na minha opinião, Shahid-Saless se preocupa com algo que se aplica a todos os seus personagens: a solidão do homem moderno. Os filmes do cineasta geralmente se concentram em um ou poucos personagens durante um curto período. Os planos longos das obras dão aos espectadores a oportunidade de observar as pessoas e suas vidas cotidianas em seu próprio ritmo, de mergulhar em seu mundo e, de certa forma, embarcar em uma jornada de descoberta quase policial: por que as pessoas agem dessa maneira e não de outra? A abordagem do cineasta é extremamente discreta, porém altamente política, porque ele deixa claro que os personagens têm uma relação recíproca com a sociedade. Ou, dito de outra forma, que eles se tornaram “congelados”, empobrecidos e brutalizados em consequência de viver em um mundo capitalista caracterizado pelo avanço tecnológico, isolamento, dinheiro e pela alienação. Longe de casa se destaca por ser um filme com personagens que lidam com seus problemas de maneiras diferentes. Considere o comportamento dos moradores de origem turca no apartamento compartilhado em Kreuzberg: o homem de aparência mais velha, desempregado, passa o tempo em casa jogando gamão; seu jeito tranquilo lembra alguns dos personagens dos filmes de Shahid-Saless rodados no Irã. Em contraste, temos o protagonista, Hüsseyin, e o estudante. Ambos os homens se mostram como pessoas mais dinâmicas. Enquanto o estudante sai constantemente e fala sobre uma mulher alemã que conheceu, Hüsseyin demonstra um otimismo bastante incomum nos filmes do diretor. A mudança de Shahid-Saless para Berlim Ocidental no final de 1974 o levou a novas transformações: seus filmes realizados no Irã, Um evento simples (Yek ettefaghe sadeh, 1973) e Natureza morta, são ambientados em uma pequena cidade no mar Cáspio e em uma área rural, respectivamente. Com Longe de casa, ele muda o cenário para um ambiente urbano. Refiro-me aos filmes Longe de casa, Tempo de amedurecimento e Diário de um amante (Tagebuch eines Liebenden, 1977) como a “Trilogia de Berlim Ocidental”. Os filmes são explicitamente ambientados na cidade dividida e marcam mais uma mudança significativa: após Longe de casa, Shahid-Saless começa a focar seus filmes em personagens de origem alemã. Terceiro ponto: O diretor foi influenciado por filmes como O samurai (Le Samouraï, 1967), de Jean-Pierre Melville, e Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, 1975), de Chantal Akerman. Ele então passou a se concentrar mais fortemente nos anos seguintes – por exemplo, em Diário de um amante e Ordem (Ordnung, 1980) – em personagens mentalmente doentes, traumatizados ou deprimidos. Como resultado de sua socialização ou de um evento específico em suas vidas, esses personagens um dia deixam de “funcionar” da maneira esperada. MF: Fica claro que você dedicou grande parte da sua vida profissional aos estudos sobre Shahid-Saless. O que, em sua opinião, torna o cineasta uma figura exemplar? O que você considera mais singular nele como cineasta e figura histórica, a ponto de justificar esse nível de atenção? O que você mais espera que as pessoas apreciem em sua obra como resultado do seu trabalho? BS: Desde a década de 1960, vários jovens iranianos vieram para a República Federal da Alemanha. Estudaram cinema aqui ou chegaram como exilados e seguiram carreira como cineastas. No entanto, ninguém tem uma história de vida como a de Sohrab Shahid-Saless. Uma trajetória como a dele – com tamanha influência em duas culturas cinematográficas – é verdadeiramente única. Os dois primeiros longas-metragens do diretor, com seu estilo e conteúdo singulares, tiveram uma influência significativa na Nova Onda Iraniana. Com Um evento simples, Shahid-Saless introduziu crianças e jovens como protagonistas no cinema iraniano moderno. Será difícil encontrar um diretor iraniano que não o tenha tomado como modelo e que não tenha observado a sociedade iraniana a partir da perspetiva – aparentemente apolítica – de crianças e jovens. Na Alemanha Ocidental, Shahid-Saless realizou treze longas-metragens e documentários até 1991, e no processo, tornou-se parte do Novo Cinema Alemão. Seus filmes foram exibidos, por exemplo, nos EUA, Canadá, Reino Unido, França, Suíça e Espanha, e ganharam prêmios internacionais. Em 1984, mais de quatro milhões de pessoas assistiram ao seu filme Utopia (1983) na televisão alemã. No mesmo ano, ele tornou-se membro da Academia de Artes de Berlim Ocidental. Foi nessa época, porém, que decidiu atravessar a Cortina de Ferro e se mudar para a Checoslováquia. Um exame profundo da vida e obra de Shahid-Saless não apenas presta homenagem a uma biografia e filmografia singulares que podem ser interpretadas em um contexto transnacional, mas também permite uma exploração da história do cinema, da televisão e da mídia no Irã, na República Federal da Alemanha, na Checoslováquia e nos EUA, para onde o cineasta se mudou em 1995 e onde faleceu três anos depois, em Chicago. Por meio da minha trilogia de livros Die langen Ferien des Sohrab Shahid Saless, bem como da pesquisa que realizei desde então e dos eventos e exibições de filmes que ocorreram até o momento, busco promover a compreensão de que Shahid-Saless não deve ser visto primeiramente como um cineasta exilado ou migrante. Assim como outros ícones do cinema, como Luis Buñuel e Luchino Visconti, Jean-Pierre Melville e François Truffaut, ele também criou um universo cinematográfico intimamente ligado à sua própria vida, com uma assinatura pessoal e inconfundível, que faz parte do cinema mundial: Ele desenvolveu um estilo cinematográfico radicalmente discreto. Embora muitos de seus filmes pareçam quase documentais, uma análise mais atenta revela composições altamente artísticas e finamente equilibradas, nas quais a imagem ocupa o centro do palco: assim como as atuações dos personagens, as imagens são tão poderosas e evocativas que falam por si mesmas. Sob essa perspetiva, os filmes de Shahid-Saless são extraordinárias Bild-Landschaften, ou seja, “paisagens fotográficas” – documentos de seu tempo e obras imbuídas de profunda empatia por aqueles que vivem nas margens da sociedade. |
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