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Em terras estranhas:
Longe de casa e O solo selado
Sessão Mutual Films – junho 2026 Instituto Moreira Salles (IMS Paulista) Curadoria e produção: Aaron Cutler e Mariana Shellard
Programa 1: "O solo selado" O solo selado Khake sar beh morh Marva Nabili | Irã | 1977, 91’, 16 mm para DCP restaurado (Venera Films) Em um pequeno vilarejo iraniano próximo à cidade de Abadan, na divisa com o Iraque, vive uma jovem em idade de se casar. Rooy-Bekheir (interpretada por Flora Shabaviz) exerce corriqueiramente as tarefas domésticas que se espera de uma mulher na aldeia: alimenta as galinhas, lava e estende as roupas e busca água no poço, repetindo as mesmas rotinas dia após dia. Porém, sua vida pacata passa a ser ameaçada pela intenção da família de arrumar-lhe um marido (ela já negou três propostas de casamento, por motivos desconhecidos) e, ao mesmo tempo, pela possível transferência da comunidade para a nova cidade nas proximidades, construída pelo governo do xá, que supostamente tornaria a vida de todos mais confortável. Contudo, a jovem não quer abrir mão de sua vida tradicional no vilarejo e também não aceita as antigas regras locais. Conforme as pressões aumentam, ela se sente cada vez mais acuada, até sofrer um colapso nervoso. O filme O solo selado conta essa história com planos abertos (no qual Rooy-Bekheir é quase sempre vista de longe), poucos diálogos e um ritmo cadenciado. Foi baseado em um fato real que ocorreu com uma menina na aldeia arenosa de Ghalleh Noo-Asgar. Os habitantes da aldeia interpretam versões de si mesmos e contracenam com a atriz que interpreta Rooy-Bekheir, que viveu por algumas semanas no vilarejo antes das filmagens para se adaptar aos movimentos das mulheres locais. A diretora Marva Nabili rodou seu longa-metragem de estreia em apenas seis dias, após também morar por um mês no vilarejo, que era próximo à casa de sua irmã. Ela contou com uma pequena equipe, cujos integrantes incluíram o renomado cinegrafista iraniano Barbod Taheri (primo da cineasta) e o músico Hooreh, responsável pela hipnótica trilha sonora que acompanha Rooy-Bekheir. Nabili (autora de apenas dois longas-metragens até o momento) estava morando no exterior há 15 anos quando voltou para o Irã para produzir uma série televisiva de contos para crianças, período durante o qual ela também fez O solo selado. No processo, se tornou apenas a segunda mulher na história do cinema iraniano a dirigir um longa-metragem. Ela contrabandeou os negativos para fora do Irã, finalizou o filme nos Estados Unidos e acompanhou sua estreia mundial no ano seguinte na mostra Forum, no Festival Internacional do Cinema de Berlim. O solo selado teve inicialmente uma circulação restrita (inclusive nunca foi exibido no Irã) e passou décadas adormecido, até ser restaurado graças a uma iniciativa da pesquisadora e produtora Garineh Nazarian (da distribuidora norte-americana Venera Films), que viu nele uma parte crucial da história do cinema iraniano. A restauração em 4K dos negativos originais em 16 mm do filme foi realizada em 2024 pela equipe da UCLA Film & Television Archive, em Los Angeles, sob a supervisão da cineasta, e a cópia restaurada de O solo selado terá sua estreia brasileira no IMS Paulista. A primeira exibição do filme será apresentada por Eliane Arakaki, pesquisadora na Universidade de São Paulo que trabalha com a representação da mulher no cinema iraniano.
Programa 2: Longe de casa Longe de casa Dar Ghorbat/In der Fremde Sohrab Shahid-Saless | Alemanha Ocidental/Irã | 1975, 91’, 35 mm para DCP restaurado (Shahid Saless Archive/Goethe-Institut) Husseyin, um imigrante temporário turco com 30 anos de idade, trabalha em Berlim Ocidental na indústria metalúrgica, assim como muitos dos seus conterrâneos que se encontram na Alemanha Ocidental em meados da década de 1970. Seus gestos silenciosos, monótonos e repetitivos consistem em refilar chapas de metal com um maquinário pesado. Após o expediente, retorna para seu prédio no bairro de Kreuzberg e sobe a escadaria até seu quarto alugado no apartamento que divide com uma família e alguns outros jovens e velhos turcos. Na pequena comunidade que se forma dentro das quatro paredes, as pessoas jogam gamão, tocam músicas tradicionais, jantam, papeiam sem intimidade e leem cartas dos seus parentes. Entre eles, Husseyin sonha em se casar, juntar dinheiro e construir uma casa em sua terra natal. Com a ajuda de um dos seus colegas, ele procura aprender a falar alemão para flertar com mulheres nativas no parque, mas sua fala desajeitada e o contraste cultural não o levam longe, e os passeios retratam uma crescente alienação que espelha a condição da própria cidade, ainda em fase de renovação pós-guerra. Assim como os demais, Husseyin enfrenta diariamente o racismo, e sua situação legal de residência na Alemanha é precária e atrelada à sua capacidade de trabalhar rapidamente. Mas Husseyin persiste, com um otimismo acanhado. Longe de casa (cujo título foi inspirado no título de um conto de Anton Tchekhov) foi o primeiro dos 13 filmes alemães realizados pelo diretor iraniano Sohrab Shahid-Saless, após os sucessos internacionais dos seus longas-metragens iranianos Um evento simples (Yek Ettefagh-e Sadeh, 1973) e Natureza morta (Tabi’at-e Bijan, 1974). A coprodução entre Irã e Alemanha Ocidental retrata o cotidiano de um imigrante que mora em uma cidade fraturada de forma crua e não sentimental, com momentos de humor melancólico. Através de escadarias escuras de edifícios malconservados, parques e ruas esvaziadas com portas de comércios cerradas, Shahid-Saless traça um importante e único retrato berlinense da época, guiado por um grupo socialmente marginalizado. O diretor recrutou os membros principais do seu elenco majoritariamente não profissional entre a população de imigrantes turcos no próprio bairro de Kreuzberg. O único ator profissional entre eles foi o iraniano Parviz Sayyad, conhecido principalmente por suas atuações cômicas em filmes populares e séries de televisão no Irã, que expressou solidariedade ao colaborar com Shahid-Saless e outros cineastas iranianos independentes e que traz para o papel de Husseyin um senso tocante de ingenuidade. Longe de casa participou na competição principal do Festival Internacional de Cinema de Berlim e chegou a ser considerado um filme icônico de Shahid-Saless. O filme foi restaurado em 4K em 2023, a partir dos seus negativos originais em 35 mm, que estavam aos cuidados da produtora alemã Provobis Film, como parte de um projeto da entidade Shahid Saless Archive (organizada pela pesquisadora alemã Vivien Buchhorn) de restaurar as obras audiovisuais de Shahid-Saless realizadas na Alemanhã e assim reposicionar o seu legado como um importante membro do Novo Cinema Alemão, além da Nova Onda Iraniana. A estreia brasileira da versão restaurada do filme no IMS Paulista é realizada com o apoio do Goethe-Institut. Agradecimentos da sessão: Behrang Samsami, Christoph Hochhäusler, David Marriott/Ei Toshinari (Arbelos Films), Ehsan Khoshbakht, Eliane Arakaki, Garineh Nazarian (Venera Films), Irineu Franco Perpetuo, Marva Nabili, Mateus Araújo, Mehrnaz Saeed-Vafa, Michelle Langford, Patrick Holzapfel, Rafael Moretzsohn Finardi, Regina De Martelaere (Cinémathèque Royale de Belgique), Renate Heilmeier/Tatjana Lorenz (Goethe-Institut São Paulo), Ross Lipman, Thomas A. Fucci, Vivien Buchhorn (Shahid Saless Archive) Minibio da convidada: Eliane Arakaki é mestranda em letras na Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisa a representação da mulher no cinema iraniano antes e depois da Revolução Iraniana de 1979, com foco nos filmes A casa é escura (Khaneh siah ast, 1962), de Forough Farrokhzad, e Minha Teerã à venda (Tehrane Man Haraj, 2009), de Granaz Moussavi. Ela também trabalha como consultora de comunicação do Instituto Maria da Penha. |
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