| << |
|
|
Programa 1: As atualidades senegalesas (5 filmes, 110’):
O Senegal e o Festival Mundial das Artes Negras Le Sénégal et le Festival Mondial des Arts Nègres Paulin Soumanou Vieyra | Senegal | 1966, 28’, 16 mm para DCP restaurado (Cinemateca de Bolonha) + Ifé – Terceiro Festival das Artes Ife / 3ème Festival des Arts Paulin Soumanou Vieyra | Senegal | 1971, 13’, 16 mm para DCP restaurado (Cinemateca de Bolonha) + Senegal ano XVI Sénegal an XVI Babacar Guèye/Orlando Lopez | Senegal | 1976, 21’, 16 mm para DCP restaurado (Cinemateca de Bolonha) + Viagem às Antilhas do presidente Senghor (Martinica e Guadalupe) Voyage aux Antilles du président Senghor (Martinique et Guadeloupe) Georges Caristan | Senegal | 1976, 17’, 16 mm para DCP restaurado (Cinemateca de Bolonha) + O avesso do cenário L’Envers du décor Paulin Soumanou Vieyra | Senegal | 1981, 26’, 16 mm para DCP restaurado (Institut Français/PSV-Films) Um passeio turístico por Dacar na ocasião do Primeiro Festival das Artes Negras, em 1966, nos coloca em contato com a vida vibrante de um dos lugares mais importantes da África Ocidental Francesa. Deixando a cidade, uma pequena e exuberante comunidade pesqueira expressa o contraste entre a modernização e a cultura tradicional local. No cinejornal senegalês O Senegal e o Festival Mondial das Artes Negras, o cineasta de origem beninense Paulin Soumanou Vieyra apresenta ao espectador um país em efervescente construção e criação, no qual seus artistas tomam as rédeas na formação de uma identidade culturalmente heterogênea. Na época em que realizou o filme, Vieyra já havia se consagrado como o autor de importantes curtas-metragens, como África sobre o Sena (Afrique-sur-Seine, 1955, codirigido com Mamadou Sarr) – considerado por muitos como o primeiro filme realizado por pessoas nativas da África subsaariana – e Lamb (Lamb – La lutte, 1963), primeiro filme da África pós-colonial a participar no Festival de Cannes. Além de cineasta, ele atuou no Senegal, seu país adotivo, como educador, patrocinador de projetos artísticos, autor de estudos pioneiros sobre o cinema africano e diretor-geral, durante 15 anos, da série As atualidades senegalesas – noticiários narrados em francês, realizados para o cinema e financiados pelo Estado senegalês, que foram produzidos entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1980. O programa no IMS Paulista apresenta quatro “atualidades” restauradas, sendo duas dirigidas por Vieyra e outras duas pelos importantes cinegrafistas Georges Caristan e Orlando Lopez. A temática central de cada noticiário aborda algum evento do continente africano ou ação do Estado, como o terceiro Festival de Artes Pan-africanas, na cidade nigeriana de Ifé, a comemoração dos 16 anos de independência senegalesa e a emblemática visita do presidente senegalês Léopold Sédar Senghor à Martinica para encontrar com o também político, escritor e cofundador do movimento Negritude, Aimé Césaire. As peças também trazem notícias internacionais, como uma campanha de vacinação contra a meningite no Brasil. O projeto, como um todo, é o de colocar a República do Senegal em diálogo com o mundo. O projeto de restauração dos filmes de As atualidades senegalesas foi iniciado pelos artistas, pesquisadores e preservacionistas italianos Marco Lena e Tiziana Manfredi (baseados no Senegal há 20 anos), que descobriram os filmes durante uma visita ao principal acervo audiovisual senegalês (La Direction de la Cinématographie du Sénégal, ou DCI) e ficaram interessados na possibilidade de preservar a história mundial recente, a partir de uma perspectiva africana. Dos aproximadamente seis mil cinejornais que foram produzidos, 250 foram resgatados para digitalização e restauração. Em 2023, a Cinemateca de Bolonha fez quatro restaurações em 4K a partir de cópias em 16 mm, graças à iniciativa African Film Heritage Project (Projeto de Patrimônio Cinematográfico Africano), dentro do World Cinema Project. Um personagem citado nos quatro cinejornais é o cineasta senegalês Ousmane Sembène – dirigindo seu média-metragem Niaye (1964), conversando com outros artistas africanos no festival em Ifé, lançando seu filme Xala no circuito francês e trabalhando no set do filme Ceddo, que foi censurado no Senegal logo após sua finalização. Vieyra, que foi coordenador da produção de Ceddo, mergulha na realização do filme em seu breve documentário O avesso do cenário, que também passará no IMS Paulista. Além de entrevistar o diretor junto aos seus principais colaboradores, como Georges Caristan e Carrie Dailey Moore (esposa do cineasta), vemos Sembène tanto na direção dos atores, em uma aldeia construída para seu drama histórico, quanto na sala de montagem, onde ele reflete sobre a edição de cinema como um gesto de pensar o mundo. O avesso do cenário vai passar em uma cópia restaurada, cedida pelo Institut Français (através da Cinémathèque Afrique) e pela Cinemateca da Embaixada da França no Brasil. A primeira exibição dele e dos quatro cinejornais será introduzida pela montadora brasileira Cristina Amaral, conhecida por seu trabalho em filmes como Ôri (1989), Serras da desordem (2006) e Mato seco em chamas (2022), entre outros. Por sua ajuda na realização do programa, agradecimentos adicionais vão para Marco Lena e Tiziana Manfredi, e Stéphane Vieyra, filho de Paulin Soumanou Vieyra e presidente da associação PSV-Films.
Programa 2: Ceddo Ceddo Ousmane Sembène | Senegal | 1977, 117’, 35 mm para DCP restaurado (Doriane Films) Quando o rei Demba War (interpretado por Makhourédia Guèye) decide se converter ao Islã, ele exige o mesmo da população majoritariamente animista de sua aldeia. Por orientação do imã local (Alioune Fall), aqueles que não se convertessem à nova religião se tornariam escravos. Inconformados com a atitude do rei, os ceddo – guerreiros não convertidos – raptam a orgulhosa princesa e herdeira do trono, Dior Yacine (Tabara Ndiaye). Enquanto diversos fiéis tentam resgatar a princesa do campo aberto onde ela e os ceddo se encontram, o imã conspira em prol de sua própria ascensão ao poder, sem prever a força da resistência local. “Ceddo trata da resistência africana à penetração do cristianismo e, principalmente do Islã, para defender sua identidade cultural”, declarou o produtor do filme, Paulin Soumanou Vieyra, em um documentário (O avesso do cenário) sobre sua realização. Ambientada nas paisagens áridas do interior do Senegal, em um período pré-colonial intencionalmente não especificado, a ficção criada pelo cineasta e escritor senegalês Ousmane Sembène oferece diversas metáforas para tratar de assuntos presentes nas primeiras décadas de independência do país africano. Enquanto o imã converte cada membro do vilarejo, extirpando seus adereços, raspando os seus cabelos e dando-lhes novos nomes, o missionário europeu (Pierre Orma), completamente apático ao seu entorno, não cria obstáculos para a comercialização da população escravizada. Já o comerciante europeu, sem falas e com uma presença marginal ao contexto da história, apesar de aparentar apenas acompanhar o curso natural da dinâmica dos líderes locais, provoca o maior impacto à população com seu comércio de armamento, pólvora e álcool, em troca de pessoas escravizadas.[1] Ceddo estreou na mostra Forum no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1977, e passou na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes no mesmo ano. Ele foi o quinto longa-metragem dirigido por Sembène, após os sucessos internacionais de A garota negra (La Noire de..., 1966), Mandabi (1968), Emitaï (1971) e Xala (1975). O primeiro cineasta a dirigir um longa-metragem no Senegal independente cresceu em uma família muçulmana, porém adotou um pensamento marxista e revolucionário quando adulto. Com a independência do país, na década de 1960, o público para quem se direcionava já não vivia diretamente à mercê do governo francês, porém o diretor considerava que a condução do país ainda seguia nos anos 1970 submissa ao ex-colonizador, e o principal exemplo disso dava-se na adoção do francês como língua primária, uma vez que a língua uolofe (usada nos diálogos de Ceddo e de outros filmes de Sembène) era amplamente falada. Assim, não foi por acaso que um estopim para a censura de Ceddo no Senegal tenha sido a forma da escrita no título do filme: Para os censores, a palavra “Ceddo” deveria ter apenas um “d”, enquanto, para o diretor, a forma tradicional continha dois “d”. A censura de Ceddo impactou violentamente a vida de Sembène, já que havia sido a maior produção dele realizada até aquele momento. Apesar da boa recepção no exterior – ajudada em parte pela brilhante fotografia colorida de Georges Caristan e Orlando Lopez e a trilha sonora magnética e anacrônica composta pelo músico camaronês Manu Dibango – o lançamento do filme no Senegal ocorreu apenas após a saída do presidente Senghor do governo, na década de 1980. Sua proibição provocou um hiato de dez anos na carreira cinematográfica de Sembène, que depois voltou a fazer mais quatro celebrados longas-metragens antes da sua morte, aos 84 anos, em 2007. O filme foi restaurado em 4K em 2023 a partir dos seus negativos originais em 35 mm pela Criterion Collection (nos Estados Unidos) e Éclair Classics (na França). O projeto fez parte de uma série de restaurações digitais dos filmes de Sembène, ocasionada pelo centenário do diretor. As exibições de Ceddo no IMS Paulista marcam a estreia brasileira da nova restauração do filme e serão acompanhadas por um vídeo de apresentação de Alain Sembène, filho do cineasta, que participou na coordenação da iniciativa. * Agradecimentos da sessão: Alain Sembène, Brian Belovarac (Janus Films), Carmen Accaputo (Cinemateca de Bolonha), Cécile Farkas (Doriane Films), Cristina Amaral, Janaína Oliveira, Júnia Torres (forumdoc.bh), Lúcia Ramos Monteiro, Marcelo R. S. Ribeiro, Marco Lena, Olivier Barlet, Sílvio Marcus de Souza Correa, Stèphane Vieyra (PSV-Films), Thomas Sparfel + Jeanne Latourrette (Cinemateca da Embaixada da França no Brasil), Tiziana Manfredi, Yasmina Price Minibios dos convidados: Cristina Amaral, formada em cinema pela ECA-USP, atua como montadora de cinema desde 1985. Ela assinou a montagem de filmes de diretores como Andrea Tonacci (Paixões e Serras da desordem, entre outros), Carlos Adriano (A voz e o vazio: a vez de Vassourinha), Carlos Reichenbach (Alma corsária e Falsa loura, entre outros), Edgard Navarro (O homem que não dormia e Abaixo a gravidade) e Raquel Gerber (Ôri). Com Tonacci, coordenou a produtora Extrema Produção Artística. Mais recentemente, tem feito trabalhos ao lado de jovens realizadores, como Adirley Queirós e Joana Pimenta (Mato seco em chamas), Djin Sganzerla (O tempo dos carvalhos), Jo Serfaty (Um filme de verão), Priscyla Bettim e Renato Coelho (As florestas da noite), Thiago B. Mendonça (Curtas jornadas noite adentro) e Eryk Rocha (Elza). Ela deu cursos e oficinas sobre montagem em diversas ocasiões e apresentou filmes em importantes festivais no Brasil e no exterior, como Cinéma du Réel (França). Entropólogo da disseminação de mundos, Marcelo R. S. Ribeiro é professor de cinema-delírio, em busca da descolonização da história do cinema, atuando desde 2017 na área de história e teorias do cinema e do audiovisual, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde é também docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas desde 2021. Entre 2023 e 2026, seu principal projeto de pesquisa aborda as emergências dos cinemas africanos entre os anos 1950 e 1980. Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, atuou como professor e pesquisador visitante no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, com uma pesquisa concentrada no filme 25, de José Celso Martinez Corrêa e Celso Luccas (1977). Entre fevereiro e julho de 2025, foi pesquisador visitante na Indiana University Bloomington, com bolsa de Pós-Doutorado no Exterior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pesquisando nos arquivos de Ousmane Sembène e Paulin Soumanou Vieyra. É autor do livro Do inimaginável (Editora UFG, 2019), assim como de capítulos de livros e artigos sobre imagem, história e direitos humanos, cinemas africanos, história do cinema, arquivo e descolonização, e tradutor (com Fernanda Silva e Sousa) do livro da pesquisadora e professora norte-americana Saidiya Hartman Cenas da sujeição: terror, escravidão e criação de si na América do século 19 (Fósforo, 2025). Ele escreve textos no site incinerrante.com e coordena o grupo (an)arqueologias do sensível (gas.ufba.br).
[1] O tratamento de questões históricas no filme é detalhado de forma compreensiva no artigo
“A África ‘pré-colonial’ no filme Ceddo (1977)”
, que foi publicado em 2025 pelo professor universitário brasileiro Sílvio Marcus de Souza Correa.
|
|
Apoio:
|
| MUTUAL FILMS |